Controles internos básicos para uma empresa que cresce
Segregação de funções, aprovações por valor, matriz de permissões, registro de alterações e revisão de acessos: os controles mínimos e como aplicá-los.
Chega um e-mail de um fornecedor avisando que mudou de conta bancária. A mesma pessoa que lança as compras atualiza o dado, prepara o pagamento e o aprova porque o gerente está viajando. Um mês depois, o fornecedor reclama que nunca recebeu o dinheiro. Ninguém dentro da empresa agiu de má-fé, mas não havia nenhum ponto em que outra pessoa precisasse conferir.
Quando a empresa era pequena, o dono via tudo. Com o crescimento, isso deixa de ser possível e são necessários controles internos: regras simples que fazem com que um erro ou um abuso exija a participação de mais de uma pessoa e deixe rastro. Este guia cobre os controles mínimos e como aplicá-los, mesmo que você trabalhe com planilhas.
Segregação de funções
O princípio é que nenhuma pessoa controle sozinha um processo do começo ao fim. Em quase todo fluxo de dinheiro há quatro funções que vale separar:
| Função | Compras e pagamentos | Vendas e recebimentos |
|---|---|---|
| Registrar | Criar o pedido de compra | Emitir a fatura |
| Aprovar | Autorizar a compra ou o pagamento | Autorizar descontos ou crédito |
| Custodiar | Executar a transferência | Receber o dinheiro ou o depósito |
| Conciliar | Conferir o extrato com os pagamentos | Conferir recebimentos com as faturas |
Se uma mesma pessoa registra e custodia, ou aprova e concilia o próprio trabalho, ela pode errar e também esconder o erro.
E se a equipe for pequena? Nem sempre há quatro pessoas. Nesse caso, use controles compensatórios: o dono revisa toda semana o extrato bancário completo, mudanças nos dados bancários de fornecedores são confirmadas por telefone com um contato já conhecido, ou o contador externo revisa uma amostra de pagamentos todo mês.
Níveis de aprovação por valor
Nem toda compra merece a mesma revisão. Uma tabela de níveis evita que o gerente assine tudo e que ninguém assine o que importa. Um exemplo com valores hipotéticos:
| Valor da compra | Quem aprova |
|---|---|
| Até Bs 5.000 | Chefe da área |
| De Bs 5.001 a Bs 30.000 | Chefe da área e gerente administrativo |
| Acima de Bs 30.000 | Gerente geral |
Os valores são definidos pela sua empresa conforme o tamanho e o risco. O importante é que estejam escritos e que todos os conheçam.
O problema do fracionamento. Suponha que o limite do chefe de área seja Bs 5.000 e, na mesma semana, aparecem três compras do mesmo fornecedor de Bs 4.800, Bs 4.900 e Bs 4.700. Juntas somam Bs 14.400, que deveriam ter passado pelo gerente administrativo. Para detectar:
- Agrupe as compras por fornecedor e por semana.
- Some os valores de cada grupo.
- Marque os grupos cuja soma ultrapassa um nível de aprovação, mesmo que nenhuma compra individual ultrapasse.
- Revise os marcados com quem aprovou cada compra.
Um indicador útil é o percentual de compras que ficam entre 90% e 100% do limite do seu nível. Se ele é alto e está subindo, alguém pode estar ajustando valores para não escalar.
Matriz de permissões
A segregação fica real quando vira permissões concretas. Uma matriz cruza papéis com ações:
| Ação | Compras | Tesouraria | Contabilidade | Diretoria |
|---|---|---|---|---|
| Criar pedido de compra | Sim | Não | Não | Não |
| Aprovar pedido de compra | Não | Não | Não | Sim |
| Alterar dados bancários de fornecedores | Não | Não | Sim | Não |
| Executar pagamentos | Não | Sim | Não | Não |
| Conciliar bancos | Não | Não | Sim | Não |
Monte a matriz por papel, não por pessoa. Quando alguém muda de cargo, você troca o papel e não precisa lembrar de permissões avulsas. E confira se nenhuma linha combina funções incompatíveis da tabela anterior.
Registro de alterações
Há dados cuja alteração deveria sempre deixar registro de quem, quando, valor anterior e valor novo:
- Dados bancários de fornecedores e funcionários.
- Preços de venda e listas de preços.
- Limites de crédito de clientes.
- Valores de documentos já aprovados.
- Usuários, papéis e permissões.
Se você trabalha com planilhas, pelo menos guarde versões datadas e proteja com senha as planilhas mestras. O essencial é que o registro não possa ser editado pela mesma pessoa que faz as alterações.
Documentação de suporte
Todo pagamento deveria poder ser rastreado até a origem. Em compras, o controle clássico é o cruzamento de três documentos: pedido de compra aprovado, nota de recebimento e fatura do fornecedor. Se quantidade ou preço não batem entre os três, o pagamento fica retido até ser esclarecido.
Indicador: percentual de pagamentos com suporte completo = pagamentos do mês com os três documentos ÷ total de pagamentos do mês × 100. Suponha que em um mês você fez 200 pagamentos e 170 tinham pedido, recebimento e fatura: 170 ÷ 200 × 100 = 85%. Os 15% restantes são a sua lista de revisão.
Os prazos de guarda de faturas e documentos contábeis são definidos pela norma vigente; confirme-os com o seu contador antes de definir sua política de arquivo.
Revisão periódica de acessos
As permissões se acumulam: alguém cobre as férias de um colega, recebe um acesso extra e ninguém o retira. Uma revisão periódica, por exemplo trimestral, corrige isso:
- Extraia a lista de usuários ativos com seus papéis.
- Cruze a lista com o quadro atual de pessoal e desative quem já não trabalha na empresa.
- Envie a cada gestor a lista da sua equipe para que confirme se cada papel está correto.
- Remova as permissões temporárias vencidas.
- Registre a revisão, com a data e quem a aprovou.
Indicador: contas de ex-funcionários ativas no momento da revisão. A meta é zero.
Erros comuns
- Usuários compartilhados. Se cinco pessoas usam “caixa1”, o registro não serve para nada.
- Exceções permanentes. “Só desta vez eu aprovo” vira regra.
- Esconder em vez de restringir. Esconder uma opção do menu não impede que alguém chegue a ela por outro caminho; o que protege é a permissão.
- Controles que ninguém revisa. Um registro que ninguém olha só ajuda depois do problema.
- Copiar a matriz de outra empresa. Os riscos dependem dos seus processos e do seu tamanho.
Checklist
- As quatro funções (registrar, aprovar, custodiar, conciliar) estão separadas ou têm um controle compensatório.
- Existe uma tabela escrita de níveis de aprovação por valor.
- O fracionamento de compras é revisado pelo menos uma vez por mês.
- Existe uma matriz de permissões por papel, sem combinações incompatíveis.
- Alterações em dados bancários, preços e permissões ficam registradas.
- Todo pagamento tem pedido, recebimento e fatura.
- Os acessos são revisados com uma frequência definida e a revisão fica documentada.
- Cada usuário é pessoal e intransferível.
Levar para um sistema
Esses controles funcionam em planilhas quando há disciplina. Quando o volume cresce, um ERP como o MKA pode aplicar permissões granulares por papel, validadas no servidor, e registrar cada alteração de dados em uma trilha encadeada por hash cuja integridade você pode verificar (ver auditoria e segurança).