Manutenção preventiva por horímetro: como montar o plano
Quando programar por horas de uso e quando por data, como calcular o próximo vencimento, MTBF e MTTR com um exemplo resolvido e o custo de manutenção por equipamento.
Na alta temporada, uma pá carregadeira trabalha dois turnos por dia. A troca de óleo e filtros estava programada “a cada três meses”, o que numa temporada normal equivalia a umas 250 horas. Desta vez, aos três meses ela já somava quase 500 horas. O filtro entupiu, a bomba hidráulica sofreu e o equipamento ficou parado uma semana, justo quando mais se precisava dele. O plano existia; o problema é que media o tempo com o relógio errado.
Este artigo explica como montar um plano preventivo baseado no uso real do equipamento, como calcular quando vence cada tarefa e quais indicadores olhar para saber se o plano funciona. Tudo pode ser feito numa planilha.
Por uso ou por calendário: quando convém cada um
O desgaste de um motor, de um material rodante ou de um sistema hidráulico depende de quanto ele trabalha, não de quantos dias passam. Mas há coisas que se degradam com o tempo mesmo com o equipamento parado: baterias, mangueiras, lubrificantes armazenados, extintores, inspeções técnicas.
| Gatilho | Quando usar | Exemplos |
|---|---|---|
| Por uso (horas ou quilômetros) | O desgaste depende da operação e o uso varia muito de um mês para outro | Óleo do motor, filtros, rolamentos, lâminas, pneus |
| Por calendário | O componente envelhece mesmo sem uso, ou há uma inspeção com data fixa | Baterias, mangueiras, inspeções de segurança, revisões documentais |
| O que ocorrer primeiro | O equipamento pode passar temporadas parado e temporadas a todo vapor | Revisão de 250 h ou 3 meses, o que chegar antes |
A regra prática: se o uso de um equipamento muda mais de 30% entre temporadas, só o calendário não basta. Use o horímetro e deixe a data como reserva para quando o equipamento trabalha pouco.
Passo a passo para montar o plano
- Faça a lista de equipamentos e sua criticidade. Alta se a parada interrompe a operação, média se há substituto, baixa se não afeta. Comece o plano pelos críticos.
- Desça aos componentes. Motor, transmissão, hidráulico, material rodante. Tarefas e custos ficam mais claros por componente do que pelo equipamento inteiro.
- Defina tarefas e intervalos. Parta do manual do fabricante e ajuste com seu histórico: poeira, altitude, carga e qualidade do combustível mudam o desgaste.
- Escolha o gatilho de cada tarefa: horas, data ou o que ocorrer primeiro.
- Fixe uma tolerância. Por exemplo, ±10% do intervalo. Fora dessa janela, a tarefa conta como atrasada.
- Monte o kit de peças de cada tarefa. Filtros, óleo, juntas. Se o kit não estiver no almoxarifado quando a tarefa vencer, o plano cai.
- Defina quem faz as leituras e com que frequência. Sem leituras confiáveis não há plano por horímetro.
- Revise o plano a cada trimestre com os indicadores abaixo.
Como calcular o próximo vencimento
A fórmula básica é:
Próximo vencimento = leitura em que a tarefa deveria ser feita + intervalo
Repare no detalhe: soma-se a partir da leitura em que deveria ser feita, não da leitura em que foi feita. Suponha uma revisão a cada 250 h que vencia às 5.000 h e foi feita às 5.040 h. A próxima vence às 5.250 h, não às 5.290 h. Se você somar a partir da execução real, cada atraso se acumula e o plano vai se deslocando sem que ninguém perceba.
Para saber quando cai no calendário:
Dias restantes = (próximo vencimento − leitura atual) ÷ horas de uso por dia
Se o equipamento marca 5.130 h e trabalha em média 16 h por dia, faltam (5.250 − 5.130) ÷ 16 = 7,5 dias. Com esse dado você pode pedir o kit de peças a tempo e combinar a parada com a operação.
As leituras: a parte que costuma falhar
Um plano por horímetro vale o que valem suas leituras. Três regras simples:
- Uma leitura nunca diminui. Se alguém anota 4.980 depois de 5.130, é erro de digitação. A única exceção é a troca do horímetro, e ela deve ficar registrada como tal, com a leitura final do antigo e a inicial do novo.
- Frequência fixa. Diária para equipamentos críticos, semanal para o resto.
- Um responsável por equipamento. O operador anota e o supervisor confere.
MTBF e MTTR com um exemplo
Dois indicadores dizem se a preventiva está funcionando:
- MTBF (tempo médio entre falhas) = tempo operacional ÷ número de falhas. Quanto maior, melhor.
- MTTR (tempo médio de reparo) = tempo total de reparo ÷ número de falhas. Quanto menor, melhor.
- Disponibilidade = MTBF ÷ (MTBF + MTTR).
Suponha um caminhão que num trimestre tinha 1.500 horas planejadas de operação. Teve 5 falhas não programadas e somou 40 horas de reparo.
- Tempo operacional = 1.500 − 40 = 1.460 h
- MTBF = 1.460 ÷ 5 = 292 h
- MTTR = 40 ÷ 5 = 8 h
- Disponibilidade = 292 ÷ (292 + 8) = 97,3%
Como interpretar: se o MTBF sobe trimestre a trimestre, a preventiva está evitando falhas. Se o MTTR sobe, o problema costuma estar na espera por peças ou técnicos, não no reparo em si. Conte só as falhas não programadas; as paradas do plano não são falhas.
Custo de manutenção por equipamento
Custo de manutenção = peças + mão de obra (horas × tarifa) + serviços externos
E para comparar equipamentos que trabalham de forma diferente:
Custo por hora de operação = custo de manutenção ÷ horas operadas
Suponha três equipamentos no mesmo semestre:
| Equipamento | Peças | Mão de obra | Externos | Total | Horas operadas | Bs por hora |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Pá carregadeira | 18.000 | 4.000 | 2.000 | 24.000 | 1.200 | 20 |
| Caminhão 1 | 9.000 | 3.000 | 0 | 12.000 | 1.500 | 8 |
| Caminhão 2 | 21.000 | 5.000 | 4.000 | 30.000 | 1.000 | 30 |
Os dois caminhões são do mesmo modelo, mas o segundo custa quase quatro vezes mais por hora. É a pergunta a fazer: tem uma falha repetida, um operador diferente, uma rota mais dura ou já está no fim da vida útil? Esse número, junto com o valor contábil do equipamento, é a base para decidir entre continuar consertando ou substituir.
Para o cálculo servir, cada peça que sai do almoxarifado deve ser lançada a um equipamento específico, não a “manutenção geral”.
Corretiva vs. preventiva
% preventiva = horas de manutenção preventiva ÷ horas totais de manutenção × 100
Cumprimento da preventiva = tarefas feitas dentro da tolerância ÷ tarefas que venciam no período × 100
Se a maior parte das horas da oficina vai para corretivas, a equipe está apagando incêndios. Se o cumprimento é baixo, o plano só existe no papel. Os dois se olham juntos: cumprimento alto com muitas falhas indica que as tarefas ou os intervalos não são os certos.
Para atacar as falhas que se repetem, registre em cada corretiva o modo de falha (o que aconteceu), a causa e a ação. Ordenadas da mais para a menos frequente, poucas causas costumam explicar a maioria das paradas.
Erros comuns
- Programar tudo por calendário porque é mais fácil de lembrar.
- Calcular o próximo vencimento a partir da data em que a tarefa foi feita.
- Aceitar leituras que retrocedem sem investigar.
- Tirar peças do almoxarifado sem lançá-las a um equipamento.
- Contar paradas programadas como falhas e distorcer o MTBF.
- Não revisar os intervalos com o histórico real.
Checklist
- Lista de equipamentos com criticidade.
- Componentes principais de cada equipamento crítico.
- Tarefas com intervalo, gatilho e tolerância.
- Kit de peças por tarefa, com estoque disponível.
- Responsável e frequência de leitura por equipamento.
- Regra para trocas de horímetro.
- Cada corretiva com modo, causa e ação.
- MTBF, MTTR, cumprimento e custo por hora revisados a cada trimestre.
Se quiser automatizar
Uma planilha funciona enquanto alguém a mantém em dia. Quando a frota cresce, um ERP como o MKA pode levar planos por calendário, por horímetro ou ambos, rejeitar leituras que retrocedem, baixar do almoxarifado as peças de cada ordem e mostrar a confiabilidade e o custo de cada equipamento nos seus relatórios (ver frota e maquinário).