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Produto11 de março de 2025· 6 min

Ponto de pedido e estoque de segurança, com um exemplo

Como calcular quando pedir e quanto de reserva manter a partir da demanda, do prazo do fornecedor e da variabilidade, com um caso resolvido passo a passo.

O fornecedor leva dez dias para entregar, mas o pedido só sai quando alguém vê a prateleira quase vazia. Durante esses dez dias as vendas continuam, e na última semana o produto falta. Com outro item acontece o contrário: compra-se “por via das dúvidas” e o depósito acumula meses de mercadoria que prendem o caixa. Os dois problemas têm a mesma causa: não existe uma regra escrita que diga quando pedir e quanto de reserva manter.

Essa regra tem nome: ponto de pedido e estoque de segurança. Ela é calculada com três dados que você já tem nas vendas e nas compras, e funciona igual numa planilha ou num sistema.

Os três dados de que você precisa

  1. Demanda média diária (d). Unidades vendidas ou consumidas em um período, divididas pelos dias do período. Use pelo menos 8 a 12 semanas e exclua os dias sem estoque: se não havia produto, a venda zero não é demanda real.
  2. Lead time (L). Dias desde que você decide pedir até a mercadoria estar disponível para venda, não apenas até o caminhão chegar. Inclui aprovação, envio do pedido, transporte, recebimento e conferência.
  3. Variabilidade. Quanto a demanda e o prazo oscilam em torno da média. Mede-se com o desvio padrão da demanda diária (σd) e do lead time (σL). No Excel, =DESVPAD() sobre a série diária.

A fórmula do ponto de pedido

O ponto de pedido (ROP) é o nível de estoque que, quando atingido, dispara a compra:

ROP = d × L + SS

A primeira parte, d × L, é o que você espera vender enquanto o pedido chega. A segunda, SS, é o estoque de segurança: o que protege você se nesse período vender mais que o normal ou o fornecedor atrasar.

Um detalhe importante: compare o ROP com a posição de estoque, não só com o físico.

Posição de estoque = estoque disponível + pedidos em trânsito − quantidades comprometidas

Se você olhar só o físico, vai pedir de novo algo que já está a caminho.

Estoque de segurança: duas formas de calcular

Versão simples (sem estatística)

SS = (demanda máxima diária × lead time máximo) − (demanda média × lead time médio)

É fácil de explicar e não exige desvio padrão, mas tende a superestimar, porque supõe que o pior dia de venda e o pior atraso acontecem juntos.

Versão com desvio padrão

Se só a demanda varia:

SS = Z × σd × √L

Se variam a demanda e o prazo:

SS = Z × √(L × σd² + d² × σL²)

Z é o fator do nível de serviço, ou seja, da probabilidade de não ficar sem estoque durante um ciclo de reposição:

Nível de serviço Z
90% 1,28
95% 1,65
98% 2,05
99% 2,33

Passar de 95% para 99% parece pouco, mas aumenta a reserva em mais de 40%. Guarde os níveis altos para produtos críticos ou de alta margem.

Mínimo e máximo

Muitas empresas trabalham com mínimo e máximo em vez de falar em ROP. É a mesma coisa com outro nome:

  • Mínimo = ponto de pedido. Quando a posição de estoque cai abaixo dele, você pede.
  • Máximo = mínimo + quantidade de pedido habitual. É o teto que você quer atingir.
  • Quantidade a pedir = máximo − posição de estoque no momento da revisão.

A quantidade de pedido habitual pode vir do lote mínimo do fornecedor, de um mês de consumo ou de um cálculo de lote econômico (EOQ), conforme o que pesar mais no seu caso.

Exemplo resolvido

Suponha um produto com estes dados hipotéticos, das últimas 12 semanas:

Dado Valor
Demanda média diária (d) 20 unidades
Desvio padrão da demanda (σd) 6 unidades
Demanda máxima observada 30 unidades/dia
Lead time médio (L) 10 dias
Desvio padrão do lead time (σL) 2 dias
Lead time máximo observado 14 dias
Nível de serviço desejado 95% (Z = 1,65)
Quantidade de pedido habitual 600 unidades

Passo 1. Demanda durante o prazo: 20 × 10 = 200 unidades.

Passo 2. Estoque de segurança, versão simples: (30 × 14) − (20 × 10) = 420 − 200 = 220 unidades.

Passo 3. Estoque de segurança, só com a variabilidade da demanda: 1,65 × 6 × √10 = 1,65 × 6 × 3,16 ≈ 31 unidades.

Passo 4. Estoque de segurança, com demanda e prazo variáveis:

  • L × σd² = 10 × 36 = 360
  • d² × σL² = 400 × 4 = 1.600
  • √(360 + 1.600) = √1.960 ≈ 44,3
  • SS = 1,65 × 44,3 ≈ 73 unidades

Passo 5. Ponto de pedido: 200 + 73 = 273 unidades. Esse é o seu mínimo.

Passo 6. Máximo: 273 + 600 = 873 unidades.

Passo 7. Pedido: na revisão semanal você tem 180 na prateleira, 90 em trânsito e 10 comprometidas. Posição = 180 + 90 − 10 = 260, abaixo de 273. Você pede 873 − 260 = 613 unidades (ou 600, se o fornecedor vende por caixa).

Repare na diferença entre os passos 3 e 4: neste caso, a variabilidade do fornecedor pesa mais que a das vendas. Ignorá-la deixaria uma reserva de 31 unidades quando você precisa de 73. E a versão simples, com 220, triplica o necessário: é segura, mas cara.

Quando revisar os parâmetros

  • Todo mês ou trimestre, como rotina, nos produtos que mais vendem (os A de uma classificação ABC).
  • Quando mudam o fornecedor, a rota ou o modal de transporte: o lead time passa a ser outro.
  • Antes e depois das temporadas (fim de ano, volta às aulas, campanhas): a média do ano inteiro não serve para dezembro.
  • Quando você lança ou descontinua um produto, ou quando um substituto tira vendas dele.
  • Quando rupturas ou excesso de estoque se repetem em um produto: é o sinal de que o parâmetro ficou velho.

Erros comuns

  • Calcular a demanda com dias sem estoque. Eles derrubam a média e a planilha “aprende” a pedir menos, o que causa mais rupturas.
  • Medir o lead time até a chegada e não até a disponibilidade. Se recebimento e conferência levam dois dias, faltam dois dias no cálculo.
  • Usar o mesmo nível de serviço para tudo. 99% em itens de baixo giro enche o depósito de mercadoria parada.
  • Comparar com o estoque físico e não com a posição de estoque, o que duplica pedidos.
  • Definir o mínimo uma vez e esquecer. Parâmetros de um ano atrás descrevem outro negócio.
  • Ignorar a validade. Em perecíveis, uma reserva grande vira perda. Combine com uma boa regra de saída (FEFO vs FIFO).

Checklist para começar numa planilha

  • Vendas diárias por produto das últimas 12 semanas, sem dias de ruptura.
  • Datas de pedido e de disponibilidade dos últimos pedidos de cada fornecedor.
  • Média e desvio padrão das duas séries.
  • Nível de serviço definido por categoria (por exemplo, A, B e C).
  • Colunas de SS, mínimo e máximo com as fórmulas acima.
  • Uma data fixa de revisão para recalcular.

Se quiser automatizar

Numa planilha isso funciona bem para dezenas de produtos; com centenas, manter os parâmetros em dia vira o gargalo. Um ERP como o MKA pode guardar os mínimos e máximos de cada produto, importá-los da sua planilha e mostrá-los junto ao kardex e ao giro (ver estoque).

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