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Segmentos9 de junho de 2026· 6 min

MRP sem mistério: o que produzir e o que comprar

Lista de materiais, necessidades brutas e líquidas, estoque, pedidos em andamento e lead times, com um exemplo de dois níveis resolvido passo a passo.

Entra um pedido grande com entrega em seis semanas. O chefe da fábrica diz que tem material de sobra; compras diz que o fornecedor de MDP melamínico leva três semanas; o almoxarifado encontra metade do que o sistema diz que existe. Na semana quatro a linha para por um componente que ninguém pediu, enquanto outro insumo foi comprado duas vezes e ocupa meio depósito.

A solução para essa bagunça tem um nome técnico: MRP (planejamento das necessidades de materiais). Não é um software, é um método. Este guia explica com um exemplo que você pode reproduzir numa planilha.

As peças de que você precisa

  • Lista de materiais (BOM): quais componentes, e em que quantidade, entram numa unidade de produto. Ela tem níveis: o produto acabado é o nível 0, seus componentes diretos o nível 1, os componentes desses componentes o nível 2.
  • Demanda: pedidos confirmados e, se você usa, previsões, com suas datas.
  • Estoque disponível: o que existe fisicamente, menos o que já está comprometido com outros pedidos.
  • Recebimentos programados: compras já emitidas e ordens de produção já em andamento que chegarão antes da data de necessidade.
  • Lead time: quanto tempo um componente leva para ficar disponível desde que você o pede ou começa a fabricá-lo.
  • Estoque de segurança e lote de compra: o colchão mínimo que você quer manter e as quantidades em que o fornecedor vende (caixas, múltiplos).

As fórmulas

Necessidade bruta do componente = necessidade líquida do pai × quantidade por unidade na BOM

Necessidade líquida = necessidade bruta − estoque disponível − recebimentos programados + estoque de segurança (se der negativo, é zero)

Data de liberação = data de necessidade − lead time

O detalhe mais esquecido: a necessidade bruta de um componente é calculada sobre a líquida do pai, não sobre a bruta. Se você já tem mesas prontas, não precisa de tampos para elas.

Método passo a passo

  1. Ordene os itens por nível da BOM e comece pelo nível 0.
  2. Calcule a necessidade líquida do produto acabado com suas datas.
  3. Exploda a BOM: multiplique essa líquida pela quantidade de cada componente para obter as necessidades brutas.
  4. Calcule a líquida de cada componente com seu estoque, recebimentos programados e estoque de segurança.
  5. Ajuste ao lote de compra ou de fabricação.
  6. Subtraia o lead time para saber quando liberar cada ordem.
  7. Desça um nível e repita até chegar aos insumos comprados.
  8. Revise as sugestões antes de transformá-las em ordens.

Exemplo de dois níveis

Suponha uma fábrica de móveis com um pedido de 200 mesas para a semana 6. A lista de materiais (números hipotéticos):

  • Nível 0: mesa.
  • Nível 1: 1 tampo por mesa (fabricado) e 4 pés por mesa (comprados).
  • Nível 2: cada tampo usa meia chapa de MDP melamínico (comprada, em múltiplos de 10) e 2,4 m de fita de borda (comprada).

Dados de partida:

Item Estoque disponível Recebimentos programados Estoque de segurança Lead time
Mesa 20 0 0 1 semana (montagem)
Tampo 30 50 (ordem em andamento) 0 1 semana (fabricação)
Pé 120 200 (chegam na semana 3) 0 2 semanas (fornecedor)
Chapa de MDP 10 0 5 3 semanas (fornecedor)
Fita de borda 300 m 0 0 1 semana (fornecedor)

Nível 0 e nível 1

Item Bruta − Estoque − Recebimentos + Segurança Líquida Necessário na Liberar na
Mesa 200 20 0 0 180 Semana 6 Semana 5
Tampo (180 × 1) 180 30 50 0 100 Semana 5 Semana 4
Pé (180 × 4) 720 120 200 0 400 Semana 5 Semana 3

Repare que tampos e pés são calculados sobre as 180 mesas líquidas, não sobre as 200 do pedido.

Nível 2

Item Bruta − Estoque − Recebimentos + Segurança Líquida Ajuste ao lote Necessário na Liberar na
Chapa (100 × 0,5) 50 10 0 5 45 50 Semana 4 Semana 1
Fita (100 × 2,4 m) 240 m 300 m 0 0 0 0 — —

O resultado do MRP são cinco decisões concretas:

  1. Semana 1: comprar 50 chapas de MDP.
  2. Semana 3: comprar 400 pés.
  3. Semana 4: fabricar 100 tampos.
  4. Semana 5: montar 180 mesas.
  5. Fita de borda: não comprar nada; o estoque cobre.

Se a fábrica tivesse calculado “no olho” sobre as 200 mesas, teria comprado 800 pés e 100 chapas. E se os 200 pés a caminho chegassem na semana 6 em vez da 3, não deveriam ser contados: um recebimento só abate a necessidade se chega antes da data em que ela ocorre.

Por que o MRP sugere e uma pessoa decide

O cálculo é mecânico; a decisão não. O MRP não sabe que:

  • A linha de tampos já está ocupada na semana 4 com outro pedido (capacidade).
  • O fornecedor de pés dá preço melhor se você comprar 500.
  • Há um material substituto em estoque que serve do mesmo jeito.
  • A tesouraria não consegue pagar essa compra neste mês.
  • O cliente pode mudar o pedido e vale a pena esperar.

Por isso o resultado do MRP são sugestões: alguém do planejamento as revisa, aceita as que fazem sentido, ajusta as demais e só então elas viram ordens de produção ou de compra.

Erros comuns

  • BOM desatualizada: uma mudança de projeto que não chegou à lista de materiais estraga todo o cálculo.
  • Estoque não confiável: se o estoque do sistema não bate com o físico, o MRP calcula sobre uma ficção. Contagens cíclicas são requisito, não luxo.
  • Lead times otimistas: usar o prazo que o fornecedor promete e não o que ele realmente cumpre.
  • Ignorar a perda: se cortar um tampo desperdiça material, a BOM deve incluir isso com um fator de perda.
  • Misturar unidades: o fornecedor vende chapas e a BOM consome metros quadrados; sem conversão clara, as quantidades não batem.
  • Explodir sobre a bruta do pai: você duplica necessidades que o estoque já cobria.
  • Rodar o MRP uma vez por mês: a demanda muda toda semana; o plano também deve mudar.
  • Replanejar tudo todo dia: o outro extremo. Congele as ordens das próximas semanas e ajuste só o que está mais distante.

Indicadores para saber se funciona

  • Paradas por falta de material: quantas vezes por mês a linha para esperando um componente.
  • Sugestões aceitas: sugestões aceitas ÷ sugestões geradas. Se for baixo, os dados mestres (BOM, lead times, estoque) não refletem a realidade.
  • Acuracidade de estoque: itens cuja contagem bate com o sistema ÷ itens contados.
  • Ordens no prazo: ordens de produção concluídas na data planejada ÷ total.

Levar para um sistema

Para poucos produtos, uma planilha com estas tabelas basta. Quando as listas de materiais têm vários níveis e os pedidos mudam toda semana, um ERP como o MKA pode explodir a receita, cruzar a demanda com o estoque e propor o que fabricar e o que comprar para você aceitar ou rejeitar cada linha (ver planejamento e MRP).

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