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Segmentos6 de outubro de 2026· 6 min

Como desenhar uma política de crédito para atacadistas

Critérios para definir limites e prazos, o que fazer quando um pedido excede o crédito, aging de recebíveis, DSO com exemplo e aplicação de pagamentos a várias faturas.

Um cliente que compra todo mês pede mais um caminhão a prazo. O vendedor sabe que ele “sempre paga”, o armazém despacha e, no fim do mês, descobre-se que esse cliente tinha faturas vencidas havia dois meses. Ninguém errou de propósito: simplesmente não havia uma regra escrita dizendo quanto crédito, por quanto tempo e o que fazer quando ele é ultrapassado.

Uma política de crédito é exatamente isso: um conjunto curto de regras que vendas, armazém e cobrança aplicam da mesma forma, sem depender da memória de ninguém. Este guia ajuda você a montá-la.

1. Defina o limite com um critério, não no olho

Um ponto de partida prático é ligar o limite ao que o cliente realmente compra e ao prazo que você concede:

Limite = compra mensal média a prazo × (prazo em dias ÷ 30) × fator de folga

  • A compra mensal média vem dos últimos 6 a 12 meses, não do melhor mês.
  • O prazo é o que você concede (30, 45, 60 dias).
  • O fator de folga (por exemplo, entre 1,0 e 1,3) cobre picos sazonais.

Suponha um cliente que compra em média Bs 60.000 por mês, com prazo de 30 dias e folga de 1,2: limite = 60.000 × 1 × 1,2 = Bs 72.000.

Depois, ajuste com critérios qualitativos:

Critério Aumenta o limite Reduz o limite
Histórico de pagamento Paga dentro do prazo Atrasos recorrentes
Tempo como cliente Vários anos Cliente novo
Garantias Tem garantia ou avalista Sem garantia
Concentração Pesa pouco na sua carteira É uma parte grande da sua carteira

Para clientes novos, comece com um limite baixo ou à vista e aumente após alguns ciclos de pagamento pontual.

2. Defina prazos por segmento

Nem todo cliente precisa do mesmo prazo. Uma estrutura simples:

Segmento Prazo Condição
Novo À vista ou 15 dias Primeiros meses de relação
Regular 30 dias Histórico limpo
Chave ou institucional 45–60 dias Volume alto e contrato ou acordo escrito

Cada dia de prazo é capital de giro que você financia. Se estender prazos, que seja em troca de algo (volume, exclusividade, preço).

3. Decida o que acontece quando um pedido excede o limite

O erro clássico é comparar o pedido com o limite. O correto é comparar a exposição:

Exposição = saldo a receber + pedidos aprovados ainda não faturados + pedido novo

Seguindo o exemplo: o cliente deve Bs 58.000 e pede Bs 20.000. Exposição = 78.000, que supera o limite de 72.000 em Bs 6.000.

Há dois caminhos, e convém deixar escrito qual se usa:

  1. Reter o pedido: não é despachado nem faturado até ser resolvido. É a opção padrão.
  2. Aprovar como exceção: alguém com autoridade (gerente de crédito, diretor comercial) o libera, e fica registrado quem, quando e por quê.

As saídas habituais para liberar um pedido retido são: um pagamento do cliente que reduza o saldo, um adiantamento, despachar só a parte que cabe no limite ou uma aprovação excepcional. Se houver faturas vencidas, a regra deveria ser mais rígida: reter mesmo que o pedido caiba no limite.

O importante é que o vendedor não seja quem libera: ele tem um incentivo legítimo a vender, não a cuidar da carteira.

4. Meça o aging da carteira por faixas

O aging agrupa o que lhe devem segundo quantos dias está vencido. Suponha uma carteira de Bs 450.000:

Faixa Valor (Bs) % da carteira Ação sugerida
Em dia 270.000 60% Acompanhamento normal
1–30 dias vencido 90.000 20% Lembrete
31–60 dias 45.000 10% Ligação e compromisso de pagamento
61–90 dias 22.500 5% Reter novos pedidos
Mais de 90 dias 22.500 5% Cobrança intensiva e revisão do limite

Olhe a tabela toda semana, não no fim do mês. O que interessa é o movimento: se a faixa de 31–60 cresce, a de mais de 90 vai crescer no mês seguinte.

5. Calcule o DSO e interprete-o

O DSO (prazo médio de recebimento) resume num número quanto você demora para receber:

DSO = (contas a receber no fechamento ÷ vendas a prazo do período) × dias do período

Suponha que no fechamento do trimestre lhe devam Bs 450.000 e as vendas a prazo do trimestre tenham sido Bs 1.350.000:

DSO = 450.000 ÷ 1.350.000 × 90 = 30 dias.

Interpretação: compare com o seu prazo médio. Se você concede 30 dias e o DSO é 30, você recebe em dia. Se no trimestre seguinte, com as mesmas vendas, a carteira sobe para Bs 600.000, o DSO seria de 40 dias: em média você recebe 10 dias atrasado, e esses 10 dias quem financia é você.

Cuidado: o DSO se distorce com vendas sazonais. Compare-o sempre com o mesmo período do ano anterior e acompanhe-o com a tabela de aging.

6. Aplique os pagamentos a várias faturas com uma regra

Clientes atacadistas costumam pagar valores redondos que cobrem várias faturas. Sem regra, cada cobrador aplica de um jeito e o aging deixa de ser confiável.

Suponha que o cliente deposite Bs 24.000 e tenha três faturas:

Fatura Saldo (Bs) Situação Mais antiga primeiro
F-1 10.000 Vencida há 50 dias Fica em 0
F-2 8.000 Vencida há 20 dias Fica em 0
F-3 12.000 Vence em 10 dias Fica em 6.000

As regras habituais são: mais antiga primeiro (a mais usada, limpa as faixas altas), vencimento mais próximo primeiro ou distribuição explícita quando o cliente indica o que está pagando. Escolha uma como padrão e use a explícita só com respaldo do cliente. Pagamentos a maior e notas de crédito devem ficar como saldo a favor visível, não esquecidos.

Indicadores para acompanhar

  • DSO mensal e sua tendência.
  • % da carteira com mais de 90 dias = saldo com mais de 90 dias ÷ carteira total × 100. No exemplo, 5%.
  • Índice de efetividade de cobrança (CEI) = (carteira inicial + vendas a prazo − carteira final) ÷ (carteira inicial + vendas a prazo − carteira final em dia) × 100. Quanto mais perto de 100%, melhor.
  • Pedidos retidos por mês e tempo médio até a liberação.
  • Concentração: porcentagem da carteira nos 10 principais clientes.

Erros comuns

  • Definir limites uma vez e nunca revisá-los.
  • Comparar o pedido com o limite, e não a exposição total.
  • Deixar o vendedor liberar os próprios pedidos.
  • Olhar a carteira só no fim do mês.
  • Aplicar pagamentos sem regra e perder o aging real.
  • Medir o DSO sem compará-lo com o prazo concedido.

Levar para um sistema

Tudo isso pode ser feito numa planilha, com disciplina. Quando há muitos vendedores e pedidos por dia, um ERP como o MKA pode reter só os pedidos a prazo que excedem a exposição do cliente até que alguém com permissão os libere, aplicar um pagamento a várias faturas e mostrar a carteira por faixas de aging (ver a solução para atacadistas e distribuidoras).

Veja o MKA com os dados do seu setor.

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